A China colocou a segurança alimentar no centro do novo plano quinquenal e projeta queda nas compras de soja até 2030, em movimento que acende alerta entre lideranças do agronegócio brasileiro.
O tabuleiro comercial Brasil-China-EUA
A China tornou-se em 2009 o principal destino das exportações brasileiras e ajudou a consolidar o país entre as maiores potências agrícolas globais. Em 2025, o Brasil faturou cerca de 100 bilhões de dólares com o mercado chinês — mais do que com qualquer outro destino, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) compilados pela BBC Brasil.
O ritmo permaneceu aquecido no primeiro semestre de 2026. De janeiro a junho, as exportações para a China somaram 58,322 bilhões de dólares, avanço de 21,9% sobre igual período do ano anterior, ainda segundo a BBC Brasil. No mesmo intervalo, os embarques aos Estados Unidos recuaram 13%, o equivalente a 2,6 bilhões de dólares a menos, em meio às tarifas de 50% aplicadas pelo governo de Donald Trump sobre parte dos produtos brasileiros em 2025. Na quarta-feira (22/7), entrou em vigor uma sobretaxa adicional de 25%.
Esse reposicionamento já redesenha o ranking global do agronegócio. Reportagem do jornal britânico Financial Times publicada na terça-feira (21/7) e reproduzida pela BBC Brasil aponta que os Estados Unidos correm o risco de perder para o Brasil a posição de maior exportador agrícola do mundo. Segundo o Departamento de Agricultura americano e o Ministério da Agricultura brasileiro, os EUA embarcaram 171 bilhões de dólares em produtos agrícolas em 2024, apenas 2 bilhões de dólares à frente do Brasil — diferença que era de 56 bilhões de dólares em 2021.
Analistas ouvidos pelo Financial Times atribuem a aproximação à guerra comercial deflagrada por Trump contra a China a partir de 2018, que levou Pequim a reduzir compras de produtos americanos e a ampliar importações de países como o Brasil.
O 15º Plano Quinquenal e a nova estratégia chinesa
O recém-lançado 15º Plano Quinquenal Nacional (2026-2030) elevou a segurança alimentar a prioridade estratégica nacional, segundo a BBC Brasil. O documento fixa metas para expandir a produção doméstica de grãos, elevar a autossuficiência em sementes agrícolas — com objetivo de 85% para culturas consideradas estratégicas —, acelerar o uso de inteligência artificial no campo e desenvolver novas fontes de proteína.
Para Larissa Wachholz, coordenadora do Programa Ásia e do Grupo de Análise da China do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), o movimento responde a uma vulnerabilidade reconhecida por Pequim. "A China identificou que estar muito exposta a importações é um elemento de vulnerabilidade para um país com uma população tão grande e por isso está promovendo uma mudança estrutural", afirma, em entrevista à BBC Brasil.
Os números da dependência atual
A China é o maior importador mundial de alimentos e acumula déficit comercial agrícola de 124,5 bilhões de dólares, de acordo com o relatório China's Food Future, da consultoria Systemiq, também citado pela BBC Brasil.
A dependência é especialmente elevada na soja: cerca de 84% do consumo doméstico chinês depende de compras externas, e mais da metade desse volume vem do Brasil, que responde por aproximadamente 71% das aquisições chinesas do grão. Na carne bovina, 32% do consumo interno é importado, dos quais 54% têm origem brasileira.
Essas compras externas foram, por décadas, uma solução para limitações estruturais do território chinês. O país abriga cerca de um quinto da população mundial, dispõe de menos de 10% das terras agricultáveis do planeta e de aproximadamente 6% dos recursos hídricos globais.
Projeções de queda e o peso da tecnologia
O relatório da Systemiq projeta que as importações chinesas de soja podem recuar cerca de 25% até 2030 — o equivalente a aproximadamente 23,5 milhões de toneladas. Entre os fatores estão ganhos de produtividade, ajustes na nutrição animal e o avanço de processos industriais como fermentação de precisão, biomanufatura e carne cultivada em laboratório, que podem reduzir a necessidade de soja na produção convencional de proteína animal.
Ricardo Abramovay, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), lembra que a soja brasileira alimenta, em última instância, a produção animal. "Essa ideia de que a produção brasileira de soja é importantíssima para alimentar o mundo é uma ficção. Nós não alimentamos pessoas, nós alimentamos animais", afirma, em entrevista à BBC Brasil.
Comparação com a política industrial chinesa
O historiador econômico Adam Tooze, da Universidade Columbia, traçou em artigo recente no Financial Times um paralelo entre a atual estratégia alimentar chinesa e a política industrial que levou o país à liderança em setores como energia solar, baterias e veículos elétricos. Para ele, o caminho é o mesmo: planejamento estatal, financiamento direcionado, coordenação entre universidades, empresas e centros de pesquisa e aposta em inovação tecnológica.
"Se o desacoplamento alimentar for perseguido com a mesma energia da política industrial da China, ele irá subverter a economia agrícola global do último quarto de século", escreveu Tooze, em texto também citado pela BBC Brasil.
Reações do agronegócio brasileiro
A ex-ministra da Agricultura e atual senadora Tereza Cristina (PP-MS) tem tratado do tema com representantes do setor. "O Brasil tem que estar com o sinal amarelo ligado", disse à BBC Brasil. "Não vai acontecer da noite para o dia [a redução das importações], mas o Brasil tem que estar de olho e se preparar para novos mercados ou para a diminuição da área plantada de soja", completou.
Para ela, a recente flexibilização das restrições chinesas a sementes geneticamente modificadas e os investimentos em melhoramento genético podem acelerar a autossuficiência do país asiático. "A hora que eles passarem para os transgênicos e aumentarem essa produção própria para diminuir a dependência, o Brasil será o primeiro país impactado, já que nós somos os maiores exportadores de soja", afirmou.
Já o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), Laudemir Müller, vê espaço para ganho mesmo com a estratégia chinesa. "A gente vê um reposicionamento de todos os países, mas em um mundo mais instável, uma reação natural é olhar para quem realmente é um bom parceiro", disse à BBC Brasil. "Nesse mundo de instabilidade e de redução de dependência, o Brasil aparece com destaque como um país amigo e um fornecedor estável."
O que observar
- A execução das metas do 15º Plano Quinquenal chinês, em especial a autossuficiência em sementes estratégicas (alvo de 85%) e a expansão da produção interna de grãos.
- O ritmo de adoção de tecnologias como fermentação de precisão e carne cultivada em laboratório e seu impacto efetivo sobre a demanda chinesa por soja.
- A evolução das tensões comerciais entre Estados Unidos e China, que pode redefinir o fluxo global de commodities agrícolas.
- A resposta do governo brasileiro e das entidades do setor em inteligência estratégica, diversificação de mercados e agregação de valor à produção.
- A próxima rodada de tarifas americanas e seus efeitos sobre o redirecionamento das exportações brasileiras.
Fontes
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