Estudo da ESPM aplica o índice internacional AIOE a 410 ocupações brasileiras e identifica matemáticos, escriturários e contadores entre os mais expostos à inteligência artificial no país.
O que o estudo mediu
O relatório "Impacto da Inteligência Artificial sobre as Ocupações no Brasil" foi publicado em 12 de fevereiro de 2026 pelo PRISMA, observatório de negócios do curso de Administração da ESPM. A elaboração é de Rafael Lionello, com coordenação de Erika Buzo Martins e Jorge Ferreira dos Santos Filho. A pesquisa cruza os microdados da PNAD Contínua do IBGE com o índice internacional AIOE (AI Occupational Exposure), abrangendo 410 ocupações e mais de 90 milhões de trabalhadores brasileiros. Na escala do AIOE, 100 equivale à média nacional das ocupações avaliadas, e cada variação de 10 pontos corresponde a aproximadamente um desvio-padrão.
Ranking das ocupações mais expostas
Segundo a Tabela 1 do estudo, matemáticos, atuários e estatísticos lideram, com AIOE de 115,2. Em seguida vêm escriturários gerais (114,9), contadores (114,8), profissionais de nível médio do direito e serviços legais (114,6) e psicólogos (114,6). Logo atrás aparecem dirigentes financeiros (114,5), profissionais de publicidade e comercialização (114,3), economistas (114,0), juízes (113,8) e professores de universidades e do ensino superior (113,5). No outro extremo, bailarinos e coreógrafos registram a menor exposição (73,3), seguidos por montadores de estruturas metálicas (80,3), lavadeiros e passadeiros manuais (80,5), trabalhadores de jardinagem e horticultura (81,8), atletas e esportistas (81,9) e pedreiros (82,5).
Perfil sociodemográfico da alta exposição
Por grande grupo ocupacional, os trabalhadores de apoio administrativo lideram, com AIOE de 110,1 — mais de um desvio-padrão acima da média. Na sequência aparecem profissionais das ciências e intelectuais (109,3) e diretores e gerentes (109,1). Técnicos de nível médio ficam em 104,5 e trabalhadores dos serviços e vendas em 101,2. A análise sociodemográfica mostra um padrão consistente: as ocupações mais expostas concentram profissionais com renda mais alta, maior escolaridade, proporcionalmente mais brancos, ligeiramente mais mulheres e majoritariamente adultos jovens. O quadro se inverte em relação às ondas anteriores de automação, que afetavam sobretudo trabalhadores de menor renda e escolaridade em funções rotineiras. Testes qui-quadrado aplicados pelo estudo confirmaram diferenças estatisticamente significativas ao nível de 5% para todas as variáveis analisadas — renda, escolaridade, cor ou raça, sexo e idade.
Divisão por estado e setor
Entre as unidades da federação, o Distrito Federal registra o maior AIOE médio (102,6), seguido pelo Rio de Janeiro (101,0) e por São Paulo (100,3). Alagoas aparece na 25ª posição, com 97,9. Por atividade econômica, as mais expostas são jurídica, contabilidade e auditoria (113,0), pesquisas de mercado e opinião pública (112,4), atividades auxiliares dos serviços financeiros (111,1), publicidade (111,1) e consultoria em gestão empresarial (111,0).
Limites do indicador e o que dizem outros estudos
O PRISMA/ESPM é explícito sobre o alcance da métrica: o AIOE mede potencial de impacto, sem distinguir se ele se materializará por substituição ou por complementaridade. Alta exposição, portanto, não significa emprego perdido. Reportagem do Ipea sobre o tema registra que matemáticos, escriturários, contadores e estatísticos estão entre os mais expostos, reflexo do potencial da IA para automatizar tarefas de cálculo, registro e processamento de dados — capacidade que distingue a onda atual das anteriores. Estimativas do próprio Ipea, em estudos sobre automação clássica, indicavam que entre 55% e 65% das ocupações formais tinham alto risco de substituição nas décadas seguintes, com maior probabilidade para trabalhadores com ensino médio incompleto; o padrão observado agora é o oposto. Já nos Estados Unidos, pesquisa do Stanford Digital Economy Lab aponta queda de cerca de 6% no emprego de jovens de 22 a 25 anos em ocupações mais expostas à IA entre outubro de 2022 e julho de 2025, enquanto a faixa de 35 a 49 anos cresceu mais de 9% no mesmo intervalo. Em funções como suporte ao cliente, marketing e programação básica, a redução chegou a 20%, com média de 13% após controle por fatores econômicos. Esses dados, porém, medem emprego perdido em território americano, e não exposição.
O que observar a partir daqui
- Acompanhamento do mercado de trabalho nas ocupações que lideram o ranking, em especial escriturários, contadores e profissionais do direito.
- Convergência ou divergência entre o padrão brasileiro de exposição — perfil de alta escolaridade — e os sinais de emprego perdido observados nos EUA, concentrados em jovens.
- Avanço de pesquisas que combinem o AIOE com dados domésticos de admissão e desligamento, ainda escassos no Brasil.
Fontes
- ESPM — Estudo da ESPM mapeia as ocupações mais expostas à IA no Brasil (relatório em PDF)
- Ipea — Ocupações com maior qualificação e especialização são mais suscetíveis aos impactos da IA, diz estudo
- Exame — Quem mais vai perder empregos para a IA? Stanford afirma o que vai mudar
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação técnica. O desempenho de sistemas de inteligência artificial varia conforme hardware, idioma, dados disponíveis e contexto de uso.
