Entram em vigor nesta quarta-feira (22/7) as novas tarifas de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, decisão do Escritório do Representante Comercial norte-americano (USTR) que resultou de investigação na qual o Brasil foi acusado de práticas "irrazoáveis" que "oneram ou restringem o comércio dos EUA", com críticas específicas ao sistema Pix. A três meses da eleição de outubro, a medida reabre o duelo de narrativas entre o governo Lula e o pré-candidato da oposição, senador Flávio Bolsonaro.
Por que o tarifaço desta vez tende a render menos para Lula
O primeiro tarifaço, em 2025, havia funcionado como combustível para a bandeira da "soberania nacional" e melhorado a percepção sobre o governo. Desta vez, o efeito eleitoral deve ser mais limitado, segundo os analistas ouvidos pela BBC Brasil.
"O tarifaço está começando a virar uma ameaça concreta ao orçamento das famílias", resume o analista político Beto Vasques, professor da FESPSP e diretor do Instituto Democracia em Xeque. Em grupos focais semanais que conduz com a cientista política Esther Solano, Vasques acompanha o chamado "eleitor pendular" de Minas Gerais, Bahia e São Paulo — pessoas que votaram em Jair Bolsonaro em 2018 contra Fernando Haddad, em Lula em 2022 contra Bolsonaro e hoje estão indefinidas. "São pessoas que prefeririam uma terceira via, mas sabem que precisam escolher entre os dois", diz.
A avaliação geral, segundo Vasques, é de que o principal responsável pela taxação é Trump. Mas os mesmos eleitores cobram dos dois lados: de Flávio, acusam o uso da proximidade com o governo norte-americano para fins eleitorais; de Lula, esperam mais negociação e menos confronto.
O cientista político Sergio Simoni Junior, da USP, lembra que o campo bolsonarista ainda carrega uma incoerência de discurso sobre o tema. "Afirmam que estão negociando com os EUA, ao contrário do governo, mas ao mesmo tempo saem em defesa da tarifa se não ganharem a eleição", observa.
Flávio sabia do risco
A preocupação com o impacto eleitoral já estava explícita na estratégia do próprio senador. No início de julho, Flávio Bolsonaro enviou carta ao USTR em que alertava para o risco de uma "vitória política" de Lula caso a nova rodada de tarifas fosse confirmada e pediu o adiamento da aplicação por 180 dias, o que levaria a medida para depois das eleições. O senador participou também de audiência pública nos EUA antes da definição.
O economista Paul Krugman, ganhador do Nobel, tratou do mesmo ângulo em artigo publicado na segunda-feira passada (20/7), avaliando que a taxação pode fortalecer o presidente brasileiro.
O eleitor de centro e os números das pesquisas
Do lado quantitativo, pesquisa Quaest encomendada pela Genial Investimentos, com entrevistas realizadas entre 10 e 14 de julho — antes da confirmação da tarifa em 15 de julho —, mostrou que 51% dos eleitores concordam com a versão de Lula sobre a responsabilidade pela taxação (ante 47% em junho), enquanto 30% concordam com Flávio (ante 35%).
No levantamento anterior, divulgado em 15 de julho, o instituto registrou que Lula atingiu saldo de aprovação positivo pela primeira vez desde dezembro de 2024: 48% aprovam e 47% desaprovam. Na intenção de voto espontânea, Lula aparece com 26% (+3 pontos), Flávio com 14% (-3 pontos) e 54% estão indefinidos. Em cenário de segundo turno, Lula teria 45% contra 37% de Flávio, dois pontos a mais de vantagem.
Para o diretor da Quaest, Felipe Nunes, porém, o principal vetor da queda de Flávio não são as tarifas, e sim o conflito com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro após a divulgação de vídeos críticos. Segundo Nunes, 35% da direita e 20% do bolsonarismo consideraram que Michelle acertou ao publicar o material.
Vasques enxerga movimento semelhante em suas entrevistas qualitativas. "Como a possibilidade de mudança não está sendo bem encarnada pelo Flávio, eles fazem um processo de dissonância cognitiva para justificar a continuidade", afirma.
Diferenças em relação a 2025
No tarifaço anterior, a família Bolsonaro se posicionou de forma explícita a favor das taxas, com o ex-presidente Eduardo Bolsonaro chegando a agradecer publicamente a Trump. Na ocasião, o governo norte-americano vinculou a taxação ao julgamento de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe.
Agora, Flávio tenta se afastar publicamente da medida, e o argumento norte-americano parte de uma investigação comercial formal, não mais de uma decisão de natureza política, o que dá mais margem ao campo oposicionista. "Estão surfando nessa ambiguidade, então a culpa não foi colada na testa deles", diz Vasques.
Em novembro do ano passado, após a condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão em regime fechado, os EUA haviam suspendido tarifas de 40% sobre itens como café, carnes e frutas, depois que Trump iniciou negociação direta com Lula. Em maio deste ano, porém, a relação azedou com a classificação pelo governo norte-americano das facções PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas — pauta historicamente cara ao bolsonarismo. Para Simoni Junior, esse acúmulo restringe a margem de manobra do Planalto: "Não são apenas as tarifas que estão em jogo", resume.
O que observar
- Preços ao consumidor: o repasse das tarifas para itens sensíveis ao orçamento das famílias, especialmente alimentos, será determinante para a avaliação do "eleitor pendular" nas próximas semanas.
- Negociação diplomática: eventuais novas conversas entre os governos Lula e Trump podem alterar a percepção de quem está se posicionando de forma construtiva.
- Discurso de Lula: a forma como o presidente se manifestar sobre Trump e sobre as tarifas nos próximos atos públicos tende a influenciar o eleitor de centro, sensível ao que Vasques chama de pedido por "mais Palácio, menos palanque".
- Cenário interno da direita: o conflito entre Flávio e Michelle Bolsonaro continua pesando mais do que as tarifas nas pesquisas e pode redesenhar a estratégia oposicionista até outubro.
Fontes
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